Quase
Há uma categoria de acontecimentos que nunca chegam a existir completamente: os quases.
Há uma categoria de acontecimentos que nunca chegam a existir completamente: os quases. E esses acontecimentos são muito relevantes na minha vida porque me colocam na sala da minha analista confabulando “e se”.
“Nunca fui senão um vestígio e um esboço do que poderia ter sido.”
Fernando Pessoa (Bernardo Soares), Livro do desassossego
Os meus quases não são exatamente arrependimentos — falta neles a nitidez das decisões tomadas. São mais difusos, como uma memória inventada de algo que não vivi. O amor que quase deu certo. A quase viagem que não fiz. A quase coragem, essa forma de covardia que se disfarça de prudência.
Há algo que me joga nesses territórios interrompidos. Porque neles, ao contrário do que aconteceu, tudo permanece intacto: as possibilidades não foram testadas, não fracassaram, não se desgastaram. Os quases ficam ali, suspensos, visões de um futuro não aconteceu.
Mas há uma armadilha nisso. Porque o quase é sedutor justamente por não ter sido vivido. Ele não nos decepciona e, por isso mesmo, pode se tornar mais confortável do que o real, com suas imperfeições e dores inevitáveis. Habitar demais os quases é, de algum modo, recusar o risco da experiência, preferir a ideia à matéria, o esboço à obra.
Ainda assim, eu não saberia viver sem eles. Os meus quases também são parte de mim. Eles desenham o contorno daquilo que fui incapaz — ou talvez apenas não pronta — de ser. E, de forma silenciosa, continuam me perguntando: e se?
Talvez amadurecer seja aprender a conviver com essa pergunta sem a necessidade de respondê-la. Ou, quem sabe, seja escolher, vez ou outra, interromper a lógica do quase e finalmente atravessar.
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livros
O amor aparece como algo que já nasce condenado à impossibilidade — um encontro que só pode existir na forma de memória, como um quase inevitável.
A vida interior dos personagens é cheia de bifurcações silenciosas, escolhas não feitas que continuam ecoando. O passado aparece como uma sucessão de quases que ainda vibram no presente.
estou lendo Trânsito, Gozo e finalmente o Coisa de Rico. Essa semana também li Romeu e Julieta, apesar de ter preguiça de clássicos.
etc e tal com essa conversa linda entre as poetas Adriana Lisboa e Júlia de Carvalho Hassen.
Até a próxima e não esqueça de curtir ali no coraçãozinho,
Essa newsletter é escrita e jamais revisada. E servindo bem para servir sempre, deixei o link dos livros.



Uma covardia disfarçada de prudência me pegou tanto que vou levar pro meu terapeuta.
eu sempre digo que o Fernandão entendeu tudo. adorei seu texto, Isa.