O fim da mulher de boa
Não escrevo para acusar as mulheres de boa. Escrevo para registrar o momento em que ela termina em mim.
O fim da mulher de boa não foi um escândalo, foi um cansaço. Um esgotamento acumulado nos gestos mínimos: pedir desculpas sem culpa, sorrir para evitar conflito, aceitar menos para não parecer excessiva. Pisar em ovos para ser aceita. A mulher de boa não caiu — foi se desfazendo por dentro, sustentada por um acordo silencioso que já não se mantinha.
Ela aprendeu cedo a administrar a própria presença. A baixar o tom da voz, a justificar o desejo, a transformar ambição em delicadeza. A mulher de boa não queria incomodar — e, para isso, abriu mão de existir inteira. Esse aprendizado não foi íntimo nem acidental, foi social, como um método eficiente de controle, transmitido com afeto, elogiado como virtude.
Não escrevo para acusar as mulheres de boa. Escrevo para registrar o momento em que ela termina em mim. Porque o fim também é um dado histórico. Annie Ernaux me ensinou que a experiência individual carrega a marca da estrutura: não é fraqueza, é condição. Quando a mulher de boa acaba, algo da ordem social se desloca.
O que vem depois não é uma heroína. É uma mulher menos disponível, menos didática, menos paciente com a pedagogia do próprio limite. Ela compreendeu que “ser de boa” sempre significou ser útil. E decidiu interromper a utilidade. Nesse gesto nasce uma raiva — não a raiva espetacular, mas a lúcida. Uma energia que, quando reconhecida, organiza. A mulher de boa não podia se dar a esse luxo. A que vem depois, sim.
O fim da mulher de boa é, portanto, um des-tornar-se. Uma recusa ativa da forma que nos foi ensinada como virtude. Já não é preciso ser compreensível, conciliadora, agradável. O desejo não pede permissão. O limite não precisa ser explicado.
O que morre aqui não é a ética. É a docilidade como valor. Morre a fantasia de que ser aceita é uma conquista pessoal. bell hooks escreveu que o feminismo existe para acabar com o sexismo — não para produzir mulheres exemplares dentro dele. O fim da mulher de boa é esse deslocamento: da adequação para a liberdade.
E há beleza nesse fim. Uma beleza seca, sem ornamento. Porque quando a mulher de boa termina, começa um movimento mais honesto do corpo, do trabalho, do amor. Não há promessa de conforto. Há verdade. E a verdade — mesmo quando corta — sustenta.
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livros
Uma dobradinha de Elena Ferrante, que escreve sobre o fim da mulher de boa como ninguém. <3
A filha perdida, Elena Ferrante
“As coisas mais difíceis de falar são as que nós mesmos não conseguimos entender.”
Elena Ferrante escreve a partir do que é aparentemente mínimo: os gestos domésticos, os vínculos familiares, a experiência da maternidade. Mas é nesse território íntimo que a narrativa se torna implacável. A família deixa de ser abrigo e passa a operar como herança e ferida, transmitindo às mulheres — de geração em geração — não apenas afetos, mas também os limites, as culpas e as formas de sobreviver a eles.
Dias de abandono, Elena Ferrante
Aqui, Ferrante não atenua a experiência da rejeição: ela a expõe. A dor de Olga não é universal, é singular, feminina, atravessada por expectativas aprendidas e afetos que a precedem. O abandono não surge como episódio, mas como estado — um colapso interno que a empurra para um mergulho existencial áspero, por vezes violento, no qual a ideia de redenção perde sentido.
estou lendo
As pequenas virtudes, Natalia Ginzburg
Sim, o mesmo da semana passada. A clínica voltou e estou lenta nas leituras.
Compre meu livro, Domingo, publicado pela Editora Patuá.
O escritor é alguém que presta atenção ao mundo, disse Susan Sontag. Pois Domingo enxerga o mundo a todo instante. São poemas em prosa, conversas por telefone, bilhetes nunca entregues, explosões de ternura; histórias inventadas e histórias vividas pela própria autora. O resultado é moderno, humano e original. É daqueles livros que, ao ser terminado, dá vontade de começar de novo.
Até a próxima,
I.
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Gostei da ideia de que o fim da “mulher de boa” não vem com explosão, mas com cansaço. Parece aquele momento em que a gente simplesmente decide não se diminuir mais.
A minha versão de boa se desintegrou após a morte do meu irmão. Perder alguém tão próximo nos faz querer agarrar cada instante como se não houvesse o amanhã, por isso não há mais tempo em existir cheia de amarras.
Obrigada por compartilhar essa reflexão incrível. 💖