Fevereiro
Gosto de fevereiro porque ele não esconde nada: não há promessa de começo e nem mais obrigação de balanço.
Fevereiro sempre me pareceu um mês íntimo, quase doméstico, apesar do barulho. Para mim, não é apenas um recorte do calendário: é um estado do corpo. O calor não pede licença, o verão queima, o suor aparece como uma prova de existência, e ser brasileira deixa de ser um dado abstrato para se tornar uma experiência física — pele, rua, excesso.
Gosto de fevereiro porque ele não esconde nada: não há promessa de começo e nem mais obrigação de balanço. O ano ainda não endureceu. As pessoas estão um pouco mais disponíveis ao improviso, como se a vida pudesse sair do planejado sem grandes consequências. Há algo de suspenso nesse tempo, e eu me reconheço nisso.
Faço aniversário no primeiro dia de Peixes, quando o mês já está maduro. Sempre achei simbólico: nascer nesse intervalo em que tudo transborda, em um domingo, onde as fronteiras ficam borradas. Nascer em fevereiro me ensinou que sentir demais não é falha de caráter, é método. Que a intensidade pode ser uma forma de leitura do mundo.
E então há o carnaval. Deus é brasileiro! Mais do que um espetáculo, é uma experiência coletiva de permissão. Amo fundo o carnaval porque ele suspende, ainda que por poucos dias, a lógica da contenção. Os corpos ocupam o espaço, a alegria deixa de ser privada, a rua vira extensão daquilo que normalmente escondemos. É quando o país parece se lembrar de si mesmo — não do mito, mas da carne.
Amo ser brasileira sempre, mas em fevereiro isso ganha outra densidade. É como se o pertencimento deixasse de ser uma ideia e passasse a ser vivido no ritmo, na cor, no cansaço feliz ao fim do dia. A sensação de que estar viva pode ser, por si só, suficiente. Fevereiro acontece, eu faço anos de vida, pulo carnaval e aconteço com ele.
~
livros
As meninas, Lygia Fagundes Telles
São Paulo, 1973. A cidade respira sob vigilância. Num pensionato para moças — espaço provisório entre a obediência e o desejo — Lorena, Lia e Ana Clara começam a experimentar aquilo que chamamos de vida adulta, mas que é, na verdade, uma forma de risco. Enquanto o país se fecha sob a violência da ditadura, elas se abrem: ao corpo, às drogas, ao amor, à insubordinação silenciosa. Lygia Fagundes Telles acompanha essas jovens não como personagens, mas como fissuras — lugares onde o privado e o político se confundem, onde cada gesto íntimo é também uma forma de resistência.
O corpo encantado das ruas, Luiz Antônio Simas
As ruas não são apenas ruas: são corpos que respiram, sangram, desejam. Ao ler O corpo encantado das ruas, tive a impressão de que Luiz Antônio Simas não descreve a cidade, mas retira dela o véu da ordem, da norma, da história oficial. Há algo profundamente erótico e político nesse gesto: a rua como lugar de encontro, de conflito, de memória, de invenção, onde os corpos se reconhecem e se perdem. Este livro me parece uma forma de resistência contra a cidade domesticada, um lembrete de que o espaço público é também um espaço de imaginação, e que toda tentativa de controlar o corpo — seja o da cidade, seja o nosso — está condenada ao fracasso.
estou lendo
Contra os filhos, Lina Meruane
etc e tal
O documentário “Fevereiros”, dirigido por Marcio Debellian. O filme acompanha a preparação do desfile campeão da Mangueira em 2016, que homenageou Maria Bethânia, e viaja entre o Rio de Janeiro e Santo Amaro (Bahia), explorando as raízes da artista, sua religiosidade e a cultura brasileira. Lindo de morrer! Já assisti mil vezes.
Compre meu livro, Domingo, publicado pela Editora Patuá.
O escritor é alguém que presta atenção ao mundo, disse Susan Sontag. Pois Domingo enxerga o mundo a todo instante. São poemas em prosa, conversas por telefone, bilhetes nunca entregues, explosões de ternura; histórias inventadas e histórias vividas pela própria autora. O resultado é moderno, humano e original. É daqueles livros que, ao ser terminado, dá vontade de começar de novo.
Até a próxima,
I.
Essa newsletter é escrita e jamais revisada. Ao encontrar erros, desconsidere. E servindo bem para servir sempre, deixei o link dos livros. Compre de livrarias, sebos e editoras. F0da-se a 4mazon!



Amei o texto ! Também sou Isadora, também sou de fevereiro 🥳 e também amo carnaval (e amei descobrir que você tem um livro chamado Domingo, o meu dia favorito da semana e título do meu “perfil”). ♥️
Talvez viver em fevereiro pode ser [nem tão] simples assim: ocupar a rua e sentir afetos sem buscar justificativas...